Um século em minha vida.

Encontrei-me muito em Úrsula Iguarán, a personagem mais viva e desatinada ao mesmo tempo, por que não dizer solitária. Ela teve em sua jornada sobre está terra tantas convicções e conclusões filosóficas sobre a vida que até no momento que digito isto em que vivo são muito semelhantes as minhas. Seu espírito centenário que a levou a ser realmente uma centenária é admirável, assistiu aos altos e baixos das próximas seis gerações de sua mesma estirpe.

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Úrsula Iguarán

Como Úrsula dizia várias vezes “Abram portas e janelas”, sempre evocando as novas oportunidades que uma fresta de luz refletida sobre os assoalhos da sala e dos quartos reiterava e conclamava uma onda de energias voluptuosas e revoltosas, é o que tento praticar por onde passo, mas às vezes o desânimo doutros nos afeta a ponto de desarmar nossa ávida muralha de força de vontade para mudar as situações.

As suas comprovações de que o tempo não passava, mas dava voltas, voltas e mais voltas, com diálogos a se repetirem e ela trocando as frases com seu interlocutor, mas a mesma prosa que negligenciava as rotações da terra na órbita do sol parecem ser brincadeiras do destino nessa existência.

A realidade e sinceridade com que o autor tratou Cem anos de solidão são fascinantes que até os fatos fantasiados parecem surreais e que não se põe em xeque suas veracidades, como acontece no caso que Meme sobe aos céus no quintal.

T3

Livro Cem anos de solidão.

A leitura dum clássico como Cem anos de solidão é encontrar um desafio a ser compreendido e entendido e se esbaldar sempre com as novas surpresas de cada página que escorrem pelos dedos. Logo abaixo tu conferes o texto de Rinaldo Gama resumindo um pouco a história de García Márquez e o seu livro Cem anos de solidão:

O colombiano Gabriel Garcia Márquez (1928-2014) foi o último grande contador de histórias do século XX – e, até prova em contrário, da própria literatura ocidental. Depois de cem anos marcados por revoluções literárias radicais, não deixa de ser surpreendente que ele tenha conquistado tamanha notoriedade – nem o Nobel lhe faltou; ganhou-o em 1982 – enquanto tentava apenas imitar o tom com que sua avó materna lhe contava episódios os mais fantásticos: sem alterar um só traço do rosto.

Em nenhum outro livro García Márquez empenhou-se tanto para alcançar aquele tom como neste romance. Assim, ao mesmo tempo em que a incrível e triste história dos Buendía pode ser entendida como uma autêntica enciclopédia do imaginário. Ela é narrada de modo a parecer que tudo faz parte da mais banal das realidades.

Seria ingênuo procurar uma chave que explicasse toda a grandeza deste livro diante do qual o repertório de adjetivos torna-se espantosamente ineficaz. Porém, é razoável atribuir parte do êxito àquela contaminação, pelo real, do universo maravilhoso da fictícia Macondo. Aqui pesou muito a experiência jornalística de García Márquez. E também a sombra do tcheco Franz Kafka (foi depois de ler a primeira frase de A metamorfose que García Márquez decidiu que seria escritor).

Mas, para além desses artifícios técnicos e influências literárias, é preciso que se diga que a atordoante sensação de realidade que transborda do livro deve-se ainda ao fato de que ele foi escrito, segundo o autor, para “dar uma saída às experiências que de algum modo me afetaram durante a infância”. Tome-se, por exemplo, a primeira frase de Cem anos. Quando o escritor era pequeno seu avô, o coronel Márquez, o apresentou mesmo maravilhado, ao gelo, tal como José Arcádio Buendía faz com o filho Aureliano. Do mesmo modo que José Arcádio, o avô de García Márquez também carregava, na vigília e nos sonhos, o peso dum morto – o homem que havia assassinado. O coronel era marido de Tranquilina, aquela avó que encheu os primeiros anos e o resto da vida do neto Gabriel de histórias bem-contadas.

García Márquez costumava dizer que todo grande escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. “E qual será o seu?”, perguntaram-lhe. “O livro da solidão”, foi a resposta. Apesar disso, ele não considerava Cem anos a sua melhor obra (gostava demais de O outono patriarca, no qual o tema também está presente). O que importa? O certo é que nenhum outro romance resume tão completamente o formidável talento deste contador de histórias de solitários – que se espalham e se espalharão por muito mais de cem anos pelas Macondos de todo mundo.

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