Papa, homossexualidade: o ato que desmitifica o discurso

Depois da morte dos grandes filósofos na antiguidade – acentua Miguel Spinelli em “Helenização e recriação de sentidos” – a filosofia restringiu-se a academias inspiradas em seus ensinamentos onde, no exercício da razão, discutiam. Havia espaço para debate, argumentação, dúvidas e possíveis correções no que havia sido construído como “certo” acerca de um modo de bem viver. Assumia-se assim, a partir dessas formulações, um etos (costume, hábito) regido por preceitos advindos da razão.

No entanto, com a ascensão do cristianismo no período helênico – sobretudo a partir da conversão do imperador Constantino no século VI d.C. – tais escolas foram fechadas e sua construção teórica subvertida em prol da nova religião. Não se buscava mais as respostas para o agir virtuoso no empenho racional, mas na fé, na verdade revelada. Ora, não era mais preciso esforço humano para alcançar a verdade e um modo de vida: este já havia sido revelado. Todo o necessário para a vida humana, para o agir virtuoso, estava contido nas escrituras e nos dogmas de fé, “(…) era através da fé, e não mais propriamente mediante empenho racional, que esses novos helenistas propunham a superação da ignorância e a qualificação do humano.” (SPINELLI, 2002, p. 21)

Tudo isso para dizer o seguinte: está na essência do cristianismo – sobre o debate acerca das coisas do mundo, do modo como levamos a vida e as N questões que circulam nesse meio –  ser impositivo e não estar aberto ao diálogo assistido pela razão na exposição de argumentos. As verdades cristãs são dogmáticas, não estão sujeitas a questionamentos. Logo, não há como debatê-las. Apenas aceitá-las, ou não. Qualquer debate – na hipótese otimista de que algum pudesse pelo menos ter início – acabaria por se encerrar nos assim chamados “dogmas da fé”. Então, para quem anda se animando com os discursos do papa Francisco: ‘seje menas miga/migo!’. A Maria continuará virgem e o Cristo vivo no meio de nós na transubstanciação do pão e vinho.

Em julho de 2013, em um encontro com jornalistas, Francisco concedeu uma entrevista durante um voo de regresso ao Vaticano. Na época, teve grande repercussão nos meios da militância pelos direitos LGBT a resposta dada à pergunta da repórter Ilze Scamparini acerca do lobby gay no vaticano. A parte em foco era a seguinte: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem, dizendo: – Esperem um pouco… como diz… não se deve marginalizar estas pessoas por isso. Elas devem ser integradas na sociedade.” Confesso que eu mesmo me entusiasmei com o dito.

No entanto, o que pareceu inovador não é mais do que o óbvio. Na lógica cristã, todos somos pecadores. Manter relações homoafetivas é um pecado; assim como o é mentir, transar antes do casamento, abortar, divorciar e ‘casar-se’ novamente. E assim segue-se uma lista gigantesca  –  porque eles sabem o que pode e o que não pode 😉 –  de ações imorais (pecaminosas). O que eu quero salientar (tendo em vista a doutrina cristã, sem nenhum juízo ainda) é que ,assim como todo pecador é bem vindo a congregar na fé, o homossexual também o é. Então, as palavras do papa não fizeram mais do que revelar o óbvio. Mas, a repercussão e admiração pela obviedade das palavras do pontífice revela algo. Na minha leitura, é como se a pessoa homossexual não fosse digna até mesmo do status de pecador, embora o seja (lembrando: na visão cristã). Tal euforia causada pelas palavras de Chiquinho revela uma demonização da pessoa homossexual. – Jonathan, que exagero, DEMONIZAÇÃO! Sim queridos, na tradição, o pecador é digno de acolhida, respeito, amor e remissão; já a figura demoníaca é a expressão de um ser que esteve na graça (presença divina) e perdeu tal direito para todo sempre. Para os demônios não há redenção. É como se agora pudéssemos comemorar nosso título: somos humanos, bate aqui miga! Deu para entender?

A declaração dada pelo papa – aqui mencionada – não é um prenúncio da aceitação da prática homoafetiva, nem o reconhecimento da nossa identidade sexual como legítima. Na mesma entrevista, em resposta às perguntas da jornalista Patrícia Zorzan – que o questiona sobre sua posição acerca do aborto e do casamento de pessoas do mesmo sexo – Francisco é sucinto e categórico: “A da Igreja. Sou filho da Igreja!”. Conhecemos muito bem a posição da igreja, né Bee?

Mais tarde, outro fato chamou-me a atenção: a recusa por parte do papa de aceitar o embaixador escolhido pela França para representar o país no Vaticano (Laurent Stefanini, homossexual assumido e católico convicto). A origem do veto resta em especulações. Alguns afirmam que se deu por conta do governo Francês ter aprovado a lei do casamento civil entre iguais. Mas o que aqui acentuo é, parece-me, que a prática contradiz o discurso de outrora. Refiro-me àquele feito durante a conversa com jornalistas no avião.

Já no último dia 03, o padre polonês Krisztof Olaf Charamsa assumiu publicamente sua homossexualidade e seu parceiro. O Vaticano por sua vez o suspendeu de suas funções na Congregação para a Doutrina da Fé, órgão que cuida do “respeito” ou cumprimento do dogma católico. Muito provavelmente ele será coagido a renunciar ao ministério sacerdotal. Senão, por força do direito canônico, expulso. Nisso podes me dizer: – Jonathan é certo que ele seja afastado e pare de exercer o ministério. Sim. Dentro dos preceitos católicos, sim. Mas, onde estão os padres pedófilos? Onde estão os que têm família (heteronormativa), e são de conhecimento da igreja? Foram expulsos? Foram afastados de suas funções? Não! Eles são apenas transferidos, realocados geograficamente. A coerência com a doutrina de vocês manda lembranças.  😉 É como se houvesse dois pesos e duas medidas. Nisso tudo, só vejo um motivo para tanto medo e falta de humanidade ao tratar de questões referentes à homoafetividade.  Na palavra do padre Charamsa, “O clero é amplamente homossexual e também, infelizmente, homofóbico até a paranóia, porque está paralisado pela falta de aceitação da sua própria orientação sexual”.

Por fim, o fato é que para além de qualquer dogma, a homossexualidade é uma realidade. Trata-se de um modo de ser no mundo que não ameaça a vida de ninguém e está intrinsecamente ligado à realização e plenitude da vida daqueles que se encontram em tal condição. Como disse o padre polonês Krisztof à revista NewsweekÉ hora da Igreja abrir os olhos ante os homossexuais crentes e entender que a solução que propõe, isto é, a abstinência total e uma vida sem amor, não é humana”. E mais, escancarar bem os olhos e a consciência frente aos homossexuais que não congregam da sua fé, tomar ciência que fora de seus templos, na vida da sociedade, é nosso direito a livre expressão do que somos, amamos e queremos. Guardem vossas construções contrárias para aqueles que à vossa doutrina aderirem. Na vida social plural e complexa, não tentem um totalitarismo, O.K.?

Refêrencias:

SPINELLI, Miguel. Helenização e Recriação de Sentidos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/10/1689845-padre-polones-revela-ser-gay-antes-de-sinodo-do-vaticano-sobre-familia.shtml

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130728_gmg-conferenza-stampa.html

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/04/papa-recebe-embaixador-gay-indicado-pela-franca-e-reitera-recusa.html

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