“Amai ao próximo como a ti mesmo!” Hã?

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A poucos dias, na aula de antropologia filosófica, discutíamos o humanismo em Emmanuel Lévinas (e um anti-humanismo na perspectiva do mesmo), como crítica à uma filosofia que anula a subjetividade do outro. Veja, é comum pensarmos na relação EU – OUTRO, de forma intencional, onde o Eu objetiva o Outro, quer desvendá-lo, numerá-lo, nominá-lo, dotá-lo de peso e medida, em fim, reduzi-lo. A partir disso, a proposta levinasiana convida a perceber o outro como um diferente de mim, como um Eu sujeito, e um Outro que também é sujeito, abandonando portanto a concepção husserliana de Alter – Ego (outro eu).

Neste contexto, nos foi feita a seguinte pergunta: “Como pensar um modelo de paz mundial segundo a perspectiva humanista de Lévinas?”. Rapidamente uma resposta nos é oferecida: “Já tentaram isso professor, “Amai o próximo como a ti mesmo”. A proposta do Cristo, a primeira análise, parece bastante satisfatória, como que uma porta de salvação à miséria humana. No entanto, não o é! Por que não? Simples, essa proposta anula a subjetividade, não dá espaço para os anseios, e necessidades do outro. Vejamos, na proposta cristã, Cristo aparece como o “Ego por excelência”, um Deus – que é perfeito, e por isso ideal – que se fez homem, e na carne representou o ideal humano, seus seguidores seriam como que outro Cristo no mundo “feitos à sua imagem e semelhança” (Gênisis 1, 26). É a ideia de um, outro, que não é outro, mas uma representação. É tão forte essa ideia, que dentro do catolicismo há o que chamam de in persona Christi (na pessoa de Cristo), propriedade dada ao sacerdote que anula sua própria identidade assumindo a de Cristo.

Aqui o objetivo não foi realizar uma exegese de um filósofo ou tradição religiosa, trata-se de uma analise pessoal sobre questões prementes do nosso tempo, um convite à pensar a partir desses sistemas a opressão sobre o outro, aquele que não corresponde ao ideal humano vigente, e o que fundamenta e legitima tais opressões. Do que eu estou falando? Bem, por muito tempo na história da humanidade, e percebemos fortemente tais traços na atualidade, existiu e existe um ideal de humano, esse ideal foi pintado pela tradição religiosa como: homem, branco, heterossexual, e rei – tenhamos aqui presente a influência que o sistema religioso teve, e ainda tem, no cenário político brasileiro, e na história da humanidade. Quais as implicações disso? Simples, o que é diferente do ideal (do ego por excelência), que não corresponde a representação, é excluído da comunidade, oprimido ou obrigado a ocupar lugares de submissão. Isso se arrasta e vigora nos dias de hoje. A mulher que por muito tempo não teve nem se quer o direito de pensar sobre si, obrigada a uma submissão ao homem seu marido, ou pai, que agora ganha força e espaço, mas continua sendo violentada e silenciada pelas mesmas estruturas que não as reconhecem como correspondentes ao ideal (Cristo-homem). O negro que foi desumanamente usado como escravo, e ainda hoje é marginalizado e carrega consigo as marcas de um sistema que excluí e oprime o diferente (do Cristo-Branco). A pessoa homossexual que nunca teve a sua identidade reconhecida como legítima, que ameaça a normatividade, e que frequentemente é obrigado a continuar escondida no armário do anonimato, ou sendo vitima de mais um estupro corretivo “para aprender a ser mulher” (gostar de homem), sendo número em páginas policiais como mais um homicídio por não corresponder a heteronormatividade (Cristo-heterossexual). E o pobre, que por não ter acesso aos bens, é (por uma automaticidade do mundo enquanto sistema) retirado de “circulação”. Aqui, alguém poderia me dizer algo do tipo, “Mas Jesus era filho de carpinteiro, pobre”, o Cristo lá de Nazaré sim, mas o Cristo idealizado pela cultura religiosa não, ele é rei, e os seus tem de prosperar, o fracasso e falta de prosperidade é marca de um “pecado”, culpabiliza seu portador, tornando-o indigno e não correspondente (ao Cristo-rei).

Essa lógica de exclusão do diferente sustentou regimes totalitaristas que massacraram o humano, e o verbo tem aplicabilidade no presente, essa lógica continua a sustentar regimes na atualidade, penso aqui no nazismo, na ditadura militar no Brasil, no grupo radical Estado Islâmico, no fundamentalismo religioso pelo qual padecem as minorias no estado “laico” brasileiro, no ideal de família brasileira. Nesse sentido que, o “amai ao próximo como a ti mesmo” não é satisfatório. Minha subjetividade transcende qualquer normatividade. O “próximo” pode simplesmente não querer ser cuidado, amado, padronizado, pode ainda ter necessidades diferente do “ti mesmo”, o humano traz consigo a diversidade de formas, costumes, crenças, modos de amar, de expressão corporal, não dá para tomar todos como iguais e anular toda a riqueza da subjetividade. O outro diferente de mim, não é ameaça, é riqueza!

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