Amor de armário

saindo_do_arm_rioEu escutava as músicas no último volume, dançava, gritava, fazia tudo e qualquer coisa para não a ouvir batendo, ignorava a porta, saía por ela à noite e voltava pela manhã. Levava a vida com pressa, sem tempo e nenhuma disposição para romance, a casualidade servia-me bem. Mas as coisas mudaram, um dia, ouvi sutilmente um bip no meu celular e lá estava nossa combinação. Não tinha nada melhor para fazer, respondi teu oi. Conversamos tanto e por tão pouco tempo, mas foi tanto e o suficiente para que eu desejasse um encontro. Não demorei muito para descobrir reciprocidade no desejo e muito menos para que a passagem estivesse em minhas mãos. Eu fui e lá tu estavas bem do jeitinho que eu imaginava. Mas fugia do esperado tudo o que me fizeste descobrir, tudo de lindo que me deste, teu primeiro beijo, tua primeira vez e todo o colorido que voltava aos meus dias.

Tudo ia bem, nem os quase quatrocentos quilômetros entre nós eram problema, mas havia um problema – nosso amor de armário. Logo que ele surgiu pensei ser tua culpa, tua falta de coragem, então abandonei a ideia de um “nós”. E tu percebeste ao ler o escrito sem contexto e iniciaste uma conversa desinteressada, ficamos nela por algum tempo, até que percebi: não há culpa em ti! Talvez tu sejas o que mais esteja sofrendo!  A culpa é deles! Eu não posso te ajudar. Minhas mãos estão atadas pelo teu medo. Sim, eu te entendo, eles te julgariam, te causariam dor, não iriam te compreender. Mas, meu querido, se tu não puderes vir comigo, eu preciso ir – disse – lá na frente talvez nos encontraremos. Guardei qualquer reação, desativei a 3G e fui dormir. Desde então tento ir.

Desculpe. Eu venho tentando, até consigo. Alguns dias a tua ausência já passa despercebida, até durmo sem se quer lembrar que faltas a nossas conversas. Tenho buscado coisas, muitas, tenho vivido imerso nelas. Mas, em alguns dias é inevitável não lembrar, acredite, involuntariamente inevitável! Como na manhã que ao abrir os olhos desejei imediatamente fechá-los e voltar ao sonho, aquele em que você segurava minha mão e dizia ter coragem, que agora estava pronto, que seríamos nós contra o mundo. Como quando fui correr e lembrei da última vez que costumava correr, que o fazia para perder alguns números na balança e ir te conhecer. Como quando cheguei em casa e vi o degrau da escada, lá onde eu sentava pegar todo o sinal da internet para te ver pelo vídeo. E ainda, como quando me vem à lembrança aquele abraço, o beijo simples, a rápida troca de olhares – antes de dar as costas e embarcar no ônibus. Se ao menos soubesse que não haveria o próximo, eu teria te segurado um pouco mais, e mais forte junto de mim.

Não! Não te preocupe, não foste tu que causaste isto. Eu estou indo, lembras? Vou porque não poderia segurar tua mão agora, o lugar que escolheste para habitar é um velho conhecido meu, eu o deixei a algum tempo, não pretendo visitá-lo novamente, menos ainda entrar e fechar as portas. Eu não poderia me esconder no armário de novo, mesmo que contigo, porque o amor que agora tenho é fruto da liberdade, voltar para lá é o mesmo que não ter mais nada à oferecer, é um ato de desamor comigo mesmo. Continuar indo, não é egoísmo, é amor.

Jonathan Dalla Vechia Bugs

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2 pensamentos sobre “Amor de armário

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