A gurizada pós-moderna e suas crises de identidade, incertezas e alienação.

3539_1402

          Segundo o folclore antropológico e sociológico, nas sociedades tradicionais a identidade era fixa, sólida e estável. Era função de papéis sociais predeterminados e de um sistema tradicional de mitos, fonte de orientação e de sanções religiosas capazes de definir o lugar de cada um no mundo ao mesmo tempo e de circunscrever rigorosamente os campos de pensamento e comportamento. O cara nascia e morria como membro do mesmo clã, de um sistema fixo de parentesco, de uma mesma tribo ou grupo, com a trajetória de vida fixada de antemão. Nas sociedades pré-modernas, a identidade não era uma questão problemática e não estava sujeita à reflexão ou discussão. Os indivíduos não passavam por crises de identidade, e esta não era nunca radicalmente modificada. Alguém era caçador e membro da tribo, e por meio desse papel e dessas funções obtinha a sua identidade.

          Na modernidade, a identidade torna-se mais móvel, múltipla, pessoal, reflexiva e sujeita a mudanças e inovações. Apesar disso, também é social e está relacionada com o outro. Certos teóricos da identidade, desde Hegel até Mead, frequentemente caracterizaram a identidade pessoal em termos de reconhecimento mútuo, como se a identidade de uma pessoa dependesse do reconhecimento das outras, em combinação com a validação dada por essa pessoa a esse reconhecimento. No entanto, as formas de identidade na modernidade também são relativamente substanciais e fixas; ainda tem origem num conjunto circunscrito de papéis e normas: pode-se ser mãe, filho, gaúcho, escoteiro, professor, socialista, católico, homossexual – ou então uma combinação desses papéis e dessas possibilidades sociais. Portanto, as identidades ainda são relativamente fixas e limitadas, embora os limites para identidades possíveis e novas estejam em contínua expansão.

          De fato, foi na modernidade que a consciência de si passou a ser reconhecida; possível refletir continuamente sobre os papéis e as possibilidades sociais disponíveis e distanciar-se da tradição (Kolb, 1986). Podemos escolher e criar – e recriar – nossa identidade à medida que as possibilidades de vida mudam e se expandem ou se contraem. Com a modernidade, porém, também aumentou a ingerência do outro,pois, à medida que o número de possíveis identidades aumenta, é preciso obter reconhecimento para assumir uma identidade socialmente válida. Na modernidade há também uma estrutura de interação, com papeis, normas, costumes e expectativas socialmente definidos e disponíveis; precisamos escolhê-lhos e reproduzi-los para obtermos identidade num processo complexo de reconhecimento mútuo. Dessa maneira, na modernidade o outro é um constituinte da nossa identidade; por conseguinte, nos últimos tempos é bem comum a personagem determinada pelo “outro”; ela depende dos outros para o reconhecimento e, portanto, para o etabelecimento de sua identidade pessoal.

         Logo, na modernidade, a identidade transforma-se em problema pessoal e teórico. Surgem certas tensões dentro das teorias da identidade e entre elas, bem como na intimidade do individuo moderno. Por um lado, alguns teóricos da identidade definem a identidade pessoal em termos de eu substancial, de essência inata e idêntica a si mesma que constitui a pessoa. Do cogito de Descartes ao ego transcedental de Kant e Husserl, ao conceito de razão do iluminismo e a alguns conceitos contemporâneos de sujeito, a identidade é concebida como algo essencial, substancial, unitário, fixo e fundamentalmente imutável. Contudo, outros teóricos modernos da identidade postulam uma não substancialidade do eu (Hume) ou concebem o eu e a identidade como um projeto existencial, como a criação do indivíduo autêntico (Kierkegaard, Marx, Nietzsche, Heidegger, Sartre). O eu existencial é sempre frágil e precisa de compromisso, resolução e ação para manter-se, o que torna a criação da identidade um projeto existencial de cada indivíduo.

        A ansiedade também entra a constituir a experiência do eu moderno. Porque nunca estamos certos de que fazemos a escolha correta, de que escolhemos a nossa “verdadeira” identidade, ou que ao menos criamos uma identidade.O eu moderno está consciente da natureza de construto da identidade, de que ele sempre pode mudar e modificar a sua identidade. Fonte de ansiedade também é o reconhecimento e a validação da própria identidade pelos outros. Além disso. A modernidade também implica um processo de inovação, de constante renovação e novidade. Segundo algumas formulações, modernidade significa a destruição das formas passadas de vida, valor e identidade, com a produção constante de novas formas. A experiência da modernité e a experiência da novidade, do novo sempre mutável, da inovação e da transitoriedade. A identidade de um individuo pode tornar-se superada, supérflua ou deixar de ser socialmente validada. Ele pode então passar pela experiência da anomia, condição de extrema alienação em que o mundo deixa de ser sua casa.

A ansiedade também entra a constituir a experiência do eu moderno. Porque nunca estamos certos de que fazemos a escolha correta, de que escolhemos a nossa “verdadeira” identidade, ou que ao menos criamos uma identidade.

            Por outro lado, a identidade pode cristalizar-se e endurecer, e, como conseqüência, surgem o tédio e a fadiga. O indivíduo cansa-se da vida, daquilo que ele é. Fica preso a uma teia de papéis, expectativas e relações sociais. Parece não haver saída nem possibilidade de mudança. Mas também pode ficar preso a papéis tão diferentes e, ás vezes, conflitantes, que já não sabe quem é. Dessa maneira na modernidade a identidade é cada vez mais problemática, e sua própria questão é um problema. Na verdade, é apenas numa sociedade preocupada com essa questão que os problemas de identidade pessoal ou de crise de identidade podem surgir, ser objeto de preocupações e debates. Os teóricos da identidade muitas vezes mostram-se ansiosos com relaçãoà fragilidade da identidade e analisam detalhadamente as experiências e as forças sociais que dão uma tunda e ameaçam a identidade pessoal.

Mas também pode ficar preso a papéis tão diferentes e, ás vezes, conflitantes, que já não sabe quem é.

A identidade na modernidade também foi ligada à individualidade, ao desenvolvimento de um eu individual único. Enquanto, tradicionalmente, a identidade era função da tribo, do grupo, era algo coletivo, na modernidade ela é função da criação de uma individualidade particular. Nas sociedades de consumo e de predomínio da mídia, surgidas depois da segunda guerra mundial, a identidade tem sido cada vez mais vinculada ao modo de ser, à produção de uma imagem, á aparência pessoal. É como se cada um tivesse de ter um jeito, um estilo e uma imagem particulares para ter identidade, embora, paradoxalmente, muitos dos modelos de estilo e aparência estejam provenham da cultura de consumo; portanto, na sociedade de consumo atual, a criação da individualidade passa por grande mediação.

            Assim, na modernidade, o problema da identidade consistia no modo como nos constituímos, nos percebemos, nos interpretamos e nos apresentamos a nós mesmos e aos outros. Como notamos, para alguns teóricos, a identidade é uma descoberta e a afirmação de uma essência inata que determina o que somos, enquanto para outros a identidade é um construto e uma criação  a partir dos papéis e dos materiais sociais disponíveis. O pensamento pós-moderno contemporâneo, porém, tem rejeitado a noção essencialista e racionalista de identidade, baseando-se na noção construtivista por ele problematizada e por nós vivenciada.

(revisando Kellner)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s