A outra metade do coração


trescorações

Era fim de tarde e mais um dia que a saudade intensa, ela não aguentava mais esperar, já fazia mais de dois meses que ele havia partido em busca do que mais almejava. Quando acontece algo que ela menos espera, o telefone toca… duas, três vezes e ela corre para atender:

– Alô?! Humberto é você? – Clara disse com a voz receosa e trêmula; observando o quadro dos dois na parede, como se aquele dia tivesse sido o último dia feliz dos dois.

O telefone ficou mudo, apenas só se ouvia uma respiração do outro lado da linha. Clara se antecipa ao saber que não poderia ser outra pessoa.

– Você nunca mais ligou! Como anda a Austrália?

Humberto responde com uma voz seca e indiferente.

-Não poderia ser diferente tudo aqui; a melhor coisa que eu poderia ter feito é ter deixado a minha antiga vida e aproveitar as oportunidades.

-Você está com raiva? – disse Clara enquanto escorregava uma lágrima de sua face e manuseava a taça de vinho que haviam compartilhado no último jantar em família. Ela sentia tanta angústia que as palavras não queriam sair de sua garganta, e raspava como se fossem espinhos. Ela continuava mesmo com o sangue de todas as palavras:

– Na última noite sonhei com você e de como seria se eu e o Julinho tivéssemos partido com você…

– E como ele está? – Humberto demonstrava ainda interesse pela criança, com sentimento de pai presente.

Clara, com náusea e massageando a barriga, parecia nem se importar no que ele acabará de perguntar e insistiu no seu sentimento de saudade dizendo:

– É tão bom ouvir sua voz!

Humberto não se deixa levar pelo sentimento da sua ex-mulher.

– Ele já está dormindo? Gostaria de falar com ele.

– Sim, ele já está descansando, só amanhã cedo para falar com ele antes da escolinha. Ele chora todos os dias e diz que gostaria de ver o pai – Clara volta a falar deles dois – Eu também sinto muito sua falta e não passo um dia sem pensar como seria a vida a três na Austrália.

Ele não se manifestava fazendo com que a conversa se tornasse mais dolorosa e fria.

– Como anda as finanças? O dinheiro que tenho mandado está dando para pagar a escolinha do Julinho?

– ele diz confiante e sem se abalar com a situação

Clara responde enquanto anda pela casa vagarosamente e desnorteada.

– Está tudo dando sim, tudo em ordem com as finanças, mas e as pesquisas com os Cangurus? Está gostando do seu emprego?

A conversa começará a fluir. Clara já se sentia mais animada; Humberto responde:

– Tudo está ocorrendo bem! As pesquisas no meu setor só crescem; estou com muitos projetos, gostaria que soubesse como está sendo aqui…

Alguma coisa o cala, ele não queria mais dar continuidade aquela breve conversa ou sentimentos que estavam se criando, portando por um instante ele pensa em desligar.

– Eu acho que tenho que desligar.

Clara desesperada diz:

– Fale! Porque está fugindo de nós? – mesmo sem esperança de que ele continue a conversar, insiste

– Você nunca irá voltar? Nem para nos visitarmos?

O silêncio ecoa novamente e Clara começa a chorar dolorosamente; nem quando ele partiu, ela sentiu tanta dor no peito. Ela havia perdido muito peso nos últimos meses e não sentia vontade de continuar sua rotina e até o gato da família entristecera com ela. Humberto se arrisca a responder:

– Eu voltarei, mas á trabalho. Tenho pesquisas aí para desenvolver, visitarei você e o Julinho, mas nunca vou me esquecer quando você dizia que me amava, mas não me apoiou em meus projetos, me forçando a seguir meus instintos ambiciosos e, de certa forma, egoístas.

Clara fecha os olhos e sente suas dores em sua carne, suas pernas ficam trêmulas, seu coração bate mais forte; o breu da casa á deixa com muito medo e desprotegida. Ele continua, vomitando todo seu sentimento que havia guardado:

– Quando me conheceu na faculdade, você sabia que as minhas experiências teriam que entrar em vigor e que era o que eu mais lutei nesses últimos anos… Tive que vir para a Austrália e você havia me prometido que me acompanharia. Você duvidou da minha capacidade, de última hora desistiu de mim, portanto todas as promessas de amor foram irrelevantes, você nunca me amou de verdade!

Clara mas que de pressa, responde com uma voz alta e ríspida:

-É claro que te amei!!!

Julinho acorda assustado após a exclamação de sua mãe e corre para a lavanderia onde ela se encontra e flagra sua mãe aos prantos.

– Mamãe o que foi? – Julinho abraça suas pernas e Humberto ao ouvir a voz de seu filho, começa a chorar igual criança.

Clara ouve o choro do seu amado e implora para que ele volte.

– Eu voltei! Abra a porta!

Ela parecia não acreditar e desesperada roda a chave da porta de medo que ele realmente poderia estar lá; ao girar a maçaneta, deu seu suspiro mais profundo. E quando abre a porta, os três se olham e se abraçam. Humberto se antecipa e diz:

– O que adianta eu seguir minha vida e desenvolver meus projetos, se o outro pedaço do meu coração ficou aqui?


Gabriele Oliveira.

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